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segunda-feira, 23 de março de 2009

O céu cinza do Partido Verde

[Bot Tree Various
Wooland Forest. Life]

Luiz Domingos Costa

O caso parece mais episódio de novela. O vereador de Curitiba Professor Galdino (ex-PV) foi expluso do Partido Verde. A cúpula do partido alegou suspeita de caixa 2 na campanha e assédio sexual a uma funcionária do partido. O vereador disse que não fez nem um, nem outro. O partido não esperou provas, não exigiu apuração, nada. Expulsou o vereador do partido e recorreu à direção da Câmara Municipal para que o mandato fosse entregue ao suplente (Paulo Salamuni do PV).

Por trás das suspeitas escolhidas pela direção da legenda, há dois fatos importantes. Primeiro, o vereador Galdino se aproximou do prefeito Beto Richa, mostrando aquele comum ecletismo dos políticos sem laços partidárias fortes, o que irritou ao comando do PV que apóia o governador Requião. Segundo, Galdino mandou embora dois funcionários de comissão indicados pelo partido porque eles não apareciam no gabinete. O presidente estadual dos verdes, Melo Viana, achou que ele contestou uma ordem do comando do partido, que defende que burocratas partidários devem ser mantidos com dinheiro público.

É uma esquisitice sem tamanho? Não, é tudo peça de novela já conhecida. O PV é um partido pequeno com carapaça de "ideológico", defende valores abrangentes (para não dizer vagos ou cambiantes) e não tem organização interna, sem mecanismos de consulta às bases (que bases?) e por aí vai. Na verdade, o PV figura como uma grande promessa de agregar a "agenda ambientalista" para a arena eleitoral, elegendo representantes comprometidos com a mesma. Mas nunca deixou de ser promessa, provavelmente porque não tem bases internas, não tem apoio de militantes ambientalistas e não tem um projeto político organizado de fato. Se o tivesse, teria demonstrado um lento e gradual crescimento, o que não ocorreu.

Além de tudo, o caso do PV do Paraná aponta para uma questão de fundo mais importante, que diz respeito ao dilema do pertencimento dos mandatos (se pertencem aos partidos ou aos políticos eleitos). Porque neste caso o professor não migrou de partido, foi expulso. Se o professor Galdino provar sua inocência no caso de assédio e caixa 2, o partido teria realmente o direito de expulsá-lo e, principalmente, direito ao seu cargo? Aliás, o partido deve ter direito ao cargo eletivo de qualquer membro que divirja internamente de suas normas, por mais absurdas que sejam?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Partidos políticos e ideologia na Câmara dos Deputados


[Gov. of Guanabara State, Carlos Lacerda after crisis following the forced step down of Brazilian Pres. Joao Goulart. 1964. John Loengard, Life]

Luiz Domingos Costa

A discussão em torno da existência ou não de partidos 'ideológicos' no Brasil não é uma tentativa otimista de espantar os problemas e falhas das instituições políticas (partidos, legislativo, governos). Entretanto, deixá-la de lado serve, no mínimo, à despoilização do debate sobre um país no qual há, gostemos ou não, partidos que merecem essa designação, no qual as ideologias existem e no qual a política não é puramente uma invenção do Marquês de Pombal e explicada pela noção de 'homem cordial'.

Em primeiro lugar, analisar a ideologia partidária requer separá-la de uma série de práticas (corrupção, clientelismo, etc) comuns aos diversos agentes políticos. Requer isolá-la de fenômenos similares (certa ideologia embutida em um programa governamental mais amplo) e analisá-los separadamente.Infelizmente, isolar certos fenômenos é um princípio científico básico.

O cientista político Celso Roma deu uma contribuição resumida aqui no blog, baseado-se em enquetes com os parlamentares entre 1987 e 2001 e afirmou ser possível identificar opiniões políticas definidas de acordo com as posições dos principais partidos no eixo ideológico esquerda-centro-direita. Trata-se de uma apresentação bastante sumária de uma pesquisa ampla sobre o assunto, sem a densidade necessária para quem queira se aprofundar no assunto (as enquentes versam sobre 107 assuntos de economia, política, sociedade) e sem as evidências necessárias para a comprovação do argumento (de que os partidos têm ideologia e são diferentes sob o prisma das posições políticas clássicas). Assim, o texto completo com os dados está disponível abaixo.

Ideologia e coesão dos partidos políticos na Câmara dos Deputados:
evidências de enquetes com os parlamentares (1987/2001) - Celso Roma
(trabalho apresentado no "Seminário Internacional Legislativo Brasileiro em Perspectiva Comparada", Brasília, 15 de maio de 2008)

Resumo:
De acordo com a visão tradicional sobre a política brasileira, os principais partidos não
têm ideário e atraem políticos motivados por interesses outros que não os vinculados ao
seu programa. Este artigo, no entanto, mostra que os deputados federais marcam
posição em torno das agendas políticas, situando as siglas partidárias num contínuo
ideológico e revelando uma unidade de crenças entre seus filiados. Os dados que
atestam essas afirmativas são procedentes de questionários aplicados aos parlamentares
pelo instituto Datafolha. Os resultados da análise indicam que o nível de consenso
intrapartidário e de dissenso interpartidário é mais alto do que se supõe.
Palavras-chave: partido político; coesão; ideologia; Câmara dos Deputados.
(download em PDF do texto completo)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Os partidos políticos brasileiros têm ideologia?*

[A sign on the Avenida Atlantica
proclaiming the Brigadeiro Gomes
as pretty. Rio de Janeiro, 1946.
Thomas D. Mcavoy. Life]


Celso Roma**


De acordo com o senso comum, os partidos da atualidade – assim como do passado – são pragmáticos por excelência: em vez de ideias, têm interesses; em vez de recrutarem filiados tendo por critério a adesão às bandeiras, facilitam a entrada indiscriminada em seus quadros; em vez de implantarem o seu programa, preocupam-se antes em preencher cargos e em receber verbas do governo. Essa percepção sobre nossos partidos é transmitida por gerações como uma verdade inquestionável. Mas ela pode ser facilmente questionada.

Longe de serem baluartes do bem comum, os partidos têm desempenho positivo o suficiente para serem reconhecidos como tais. O mais importante quesito que eles atendem se refere à ideologia. Como grupos políticos, os partidos têm sistemas de ideias que os diferenciam quanto aos assuntos da economia, política e sociedade. Tal afirmativa pode ser corroborada pelas enquetes realizadas na Câmara dos Deputados entre 1987 e 2001**.

No Congresso Constituinte de 1986 a 1988 configurou-se uma clivagem ideológica entre os partidos. Em que pese o caráter incipiente dos partidos da época, devido ao retorno do pluripartidarismo sete anos antes, é possível identificar uma esquerda (PT, PDT, PCB, PCdoB), um centro (PMDB) e uma direita parlamentar (PTB, PFL, PDS, PDC, PL, PSC). O Centro Democrático – ou Centrão – foi constituído por parlamentares de centro e direita, que rivalizou com um bloco formado por partidos de esquerda. Mais: os deputados federais se revelaram capazes de se posicionarem uns aos outros no espectro da ideologia.


Congresso Constituinte (1987-1988)
E S P E C T R O I D E O L Ó G I C O
esquerda centro direita
PT PDT PCdoB PCB PSB PMDB PDS PDC PTB PFL PL PSC


As divergências mais significativas entre os partidos ocorreram em torno do perfil das instituições democráticas em construção. Enquanto a direita, cujo bloco era composto pelo PDS, PFL, PTB, PDC, PL e PSC, procurava restringir o grau de abertura democrática das novas instituições políticas – por exemplo, defendendo que o papel das Forças Armadas continuasse a abranger também a ordem interna –, a esquerda, constituída pelo PT, PDT, PCdoB, PCB e PSB, tentava expandi-lo, seja ampliando o direito de voto ou defendendo que o texto fosse submetido a referendo antes de entrar em vigor. Além de criticarem o presidencialismo, que contava com o apoio majoritário apenas pelo PDT e PTB, os esquerdistas apoiavam outras mudanças, como a instituição do voto facultativo, a ampliação do direito ao voto aos cidadãos com idade entre 16 e 18 anos e a adoção de um Poder Legislativo unicameral. No entanto, um centro político já podia ser observado, através do consenso em torno de propostas menos polêmicas, como o direito de voto à baixa oficialidade das Forças Armadas, ou mesmo ao parlamentarismo, mais aceito entre os congressistas que no interior da sociedade. O PMDB encampou esse centro parlamentar.

Na nova ordem constitucional, marcada pelo surgimento e fusão entre as legendas, o espectro ideológico foi levemente alterado. O ano de 1993, previsto para a Revisão Constitucional ensaiou uma ampla discussão sobre a economia, que, num primeiro momento, sinalizou a liberalização do papel do Estado e do mercado. Nessa ocasião se iniciou uma virada decisiva na conjuntura política do país, apoiada por uma coalizão de centro-direita montada para a disputa das eleições presidenciais de 1994 e a formação do governo Fernando Henrique Cardoso em dois mandatos consecutivos.

Essa agenda opôs os partidos, criando blocos parlamentares de esquerda e centro-direita. O PT e os pequenos de esquerda rejeitavam a possibilidade de aprovar uma emenda para permitir a reeleição dos mandatários do Poder Executivo. Em 1993, PMDB e PFL conseguiram criar um consenso mínimo em torno dessa proposta, enquanto o PSDB se manteve dividido ao meio, aderindo a ela apenas em 1995. PT, PDT e os pequenos partidos de esquerda defendiam a garantia dos direitos dos trabalhadores à aposentadoria pelos critérios definidos. PFL, PSDB, PPB e PMDB propunham mudanças na aposentadoria, embora discordassem sobre a fórmula a ser empregada. PT e seus aliados defendiam o direito irrestrito à greve, inclusive para os funcionários públicos, a unificação do salário mínimo e a manutenção do tamanho das terras indígenas. Os demais partidos aceitavam restringir o direito de greve, principalmente dos setores essenciais, quebrar a estabilidade no serviço público em alguns setores, regionalizar o salário mínimo e alterar o critério para demarcar as terras indígenas. De um lado, o PSDB e o PMDB apoiavam a quebra do monopólio da Telebrás. A contenda entre os partidos envolveu também a entrada de capital estrangeiro no setor do petróleo, embora a esquerda tenha se dividido quando o setor em debate era o de telecomunicações. PFL, PSDB, PPB e PMDB propunham modificar ou retirar a definição de empresa de capital nacional da Constituição, contrastando com os partidos de esquerda, que defendiam mantê-la.


Nova ordem constitucional (1989-2002)
E S P E C T R O I D E O L Ó G I C O
esquerda centro-direita
PT PDT PCdoB PCB PSB PMDB PPR/PPB PSDB PTB PFL PL


Em linhas gerais, os partidos brasileiros assim se diferenciaram em termos de ideologia em dois momentos marcantes da política: a feitura da Constituição Federal de 1988 e os primeiros treze anos de atividade legislativa sob a nova ordem constitucional.

* Esta análise recobre apenas o período 1987-2001. O autor informa que ainda não dispõe dos dados necessários para a análise do período do Governo Lula.

**Para baixar o paper que embase esta análise (com as evidências e recursos utilizados) em formato PDF, clique aqui.

** Celso Roma é cientista político pela USP.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Uma agenda contra a bestialização de idéias e termos

[Portrait of US boxer Duane Bobick with his boxing
gloves on. 1972. Co Rentmeester. Life]


Luiz Domingos Costa

Os anos do governo Lula, sob o impacto do “mensalão”, caixa 2 e outras práticas corruptas fez a imprensa acreditar como nunca que o Brasil é uma calamidade quando se trata de política. Tornou-se sinônimo falar em “governabilidade”, clientelismo, fisiologismo, patrimonialismo, caixa 2, toma lá dá cá, PMDB. Nesse sentido, a imprensa presta um enorme desserviço à democracia e ao esclarecimento público. Porque são coisas diferentes, porque tentar associar tantos e díspares conceitos e fatos de forma mecânica é errado e contraproducente para o debate.

Embora 80% das colunas sirvam a esse diagnóstico simplista, o texto mais acabado dessa visão eu encontrei na coluna de José Nêumanne do Estadão de 4-03-2009. Acredito que seja o supra-sumo da inépcia analítica, da falsa erudição e da mistura bestial de idéias e termos que não são adjetivos, mas substantivos ou conceitos.

É fato que diversos analistas escapam a esse derrame de palavras vazias e outros que evitam misturar tanto assunto na mesma coluna. Mas o sumo que sobra do acompanhamento dos comentários políticos é uma espiral ilógica: tradição política + cultura política pouco cívica = instituições viciadas, legislação permissiva, partidos fracos, políticos fisiologistas, corruptos e o fim da história. Ou melhor, os itens à direita da equação retroalimentam o lado esquerdo dela. Enfim, um caso clássico de barbárie.

Não vivemos uma democracia escandinava, nem desfrutamos de uma democracia que dê conta de satisfazer os critérios marshallianos (de direitos civis, políticos e sociais). Analisar de forma mais crítica a ausência de direitos civis e sociais seria, aliás, um caminho mais útil para criticar o “sistema político”. Enfim, não se trata de louvar nada nem defender nada do que aí está. Trata-se apenas de separar certos pontos que não são sinônimos e não são causa e efeito uns dos outros necessariamente. Os problemas existem, a corrupção é endêmica e o sistema político tem diversos problemas a serem discutidos. Mas a discussão desses assuntos requer uma extensa discussão sobre pontos que, quando interligados, não podem ser falsamente colocados uns a frente dos outros para fórmulas que servem apenas à retórica e ao fanatismo político-partidário.

Esse blog irá apresentar uma série de artigos destinados a esse debate. Com textos sobre o sistema político, sobre os partidos políticos (suas semelhanças, diferenças e, no limite, sua efetividade), a existência de certas práticas recorrentes (fisiologismo, por exemplo) e a relação destes com outros tantos aspectos da política nacional, corrupção, caixa 2 e assim por diante.

O primeiro deles já é velho no arquivo do blog. Define e discute o "presidencialismo de coalizão" termo que define o formato de relação entre o executivo e o legislativo no Brasil. Acesse-o aqui.

Outro texto sobre o assunto é o de Sérgio Abranches, que trata do presidencialismo no Brasil e nos seus vizinhos latino-americanos, disponível aqui - Veja on-line.

Para comentar, favor utilizar o espaço do blog do GAC.

Conservadores e Liberais nas eleições dos EUA

[Two men reading newspapers in the corridor
at Republicans caucus. Washington, DC, 1952.
Hank Walker. Life]


Publicado no Valor Econômico de 05-12-2008.

Por Celso Roma*

FATORES DO VOTO PARA PRESIDENTE NOS EUA
Ideologia é fator que permite distinguir mais claramente os eleitores


A eleição deste ano inovou a história política dos Estados Unidos. Pela primeira vez, um afro-descendente é eleito presidente da República, acontecimento extraordinário para um país que antes da aprovação, em 1965, da Lei do Direito ao Voto, restringia a participação dessa minoria no processo eleitoral. A posse do democrata Barack Obama encerrará, ao mesmo tempo, oito anos do Partido Republicano à frente da Casa Branca. George W. Bush teve a legitimidade questionada desde o imbróglio na eleição de 2000 e, durante a sua administração, tornou-se impopular em conseqüência da tomada de medidas em assuntos domésticos e exteriores que contrariaram a opinião pública. A rejeição ao desempenho de Bush, somada ao apoio da imprensa à candidatura do partido rival e ao fato de que Obama estava mais bem avaliado nas enquetes sobre as questões chave da agenda eleitoral — economia, imposto, energia e sistema de saúde —, ensejava uma vitória esmagadora do democrata.

Contudo, pela contagem dos votos, Barack Obama obteve 52,7% da preferência dos eleitores; John McCain, 46%; e os demais candidatos juntos, entre eles Ralph Nader e Bob Barr, 1,3%. A diferença de votos entre os principais presidenciáveis foi de 6,7 pontos percentuais, ou seja, cerca de 8 milhões e meio num total de 125 milhões. Por que ela foi pouco expressiva em termos numéricos, se a circunstância estava tão favorável ao democrata?

Um exame do perfil dos eleitores dos então candidatos revela que a clivagem partidária prevaleceu sobre a conjuntura. Nesta eleição, assim como nas anteriores, os votantes fizeram escolhas condicionadas por seus atributos demográficos, sociais e políticos, e produzindo o padrão historicamente consolidado. Os dados apresentados na tabela abaixo sugerem isto.

[clique na imagem para ampliar]

O sistema de crença dos eleitores influenciou a direção desse sufrágio. Dos que se classificam democrata liberal, situando-se no quadrante à esquerda no arco político, 96% disseram votar Obama. Quanto aos eleitores que se consideram republicanos conservadores, posicionando-se no setor à direita nesse mapeamento, 92% afirmaram votar McCain. Os independentes, por seu turno, dividiram-se entre ambos os candidatos (27% contra 33%). Ideologia é o fator que permite distinguir mais claramente os eleitores de Obama e os de McCain.

A religiosidade, que de certa forma está vinculada a determinadas posições políticas, refletiu-se na preferência dos eleitores. Por exemplo, entre os brancos não-hispânicos, o democrata foi escolhido por aqueles que nunca ou raramente vão à igreja. O republicano contou o apoio dos religiosos, sobretudo dos que freqüentam um templo todas as semanas.

Os eleitores votaram de acordo também com suas características populacionais. Dentre elas, a etnia se mostrou a mais importante. Os negros (92%) e os hispânicos (74%) tenderam a votar Obama. McCain levou vantagem entre os brancos (50%). Cabe ressaltar, porém, que 43% dos eleitores dessa etnia deram voto a Obama. Esse apoio colaborou para o sucesso do democrata, visto que os brancos não-hispânicos constituem a maioria do eleitorado. A estrutura étnica da população, que vem se alterando ao longo do tempo, poderá favorecer ainda mais o Partido Democrata, considerado como a primeira opção de voto dos afros e latinos.

Apesar de serem fatores menos importantes, a idade, o gênero e o nível de escolaridade dos eleitores contribuíram em parte para o arranjo dos votos. Dos eleitores que tinham entre 18 e 29 anos, Obama conseguiu quase o dobro da preferência obtida por McCain (63% contra 33%). O republicano se saiu melhor na faixa etária de 65 anos ou mais. Nos demais estratos, a diferença a favor do democrata foi de pelo menos 10 pontos percentuais. As eleitoras preferiram Obama (55%) a McCain (38%). O eleitorado masculino se dividiu ao meio. Entre os eleitores que possuem pós-graduação completa ou incompleta, o democrata obteve ampla vantagem sobre o seu oponente (61% a 34%).

Comparando este pleito com o anterior, nota-se que os eleitores circunscritos às regiões do país se comportaram de modo consistente. McCain se destacou nos Estados pró-republicanos onde George W. Bush tinha derrotado o seu adversário em 2004 por seis ou mais pontos de diferença. Da mesma forma, Obama se consagrou nos Estados pró-democratas onde John Kerry ganhara de seu concorrente quatro anos antes. O candidato republicano se sobressaiu no Sul e no Centro-Oeste do território. O democrata concentrou votos nas costas Oeste e Leste, bem como venceu a disputa nos estados indefinidos, o que lhe projetou 365 grandes eleitores para o Colégio Eleitoral, número acima do exigido para ser empossado (270).

Em poucas palavras, os votos para presidente estiveram associados ao partido, ideologia e etnia dos eleitores. Barack Obama não foi eleito por um consenso suprapartidário. As linhas que delineiam o partidarismo nos Estados Unidos se fizeram presente nessa eleição e já orientam a expectativa dos eleitores quanto ao desempenho do futuro governo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Gallup, de 9 a 11 de novembro, após a divulgação do resultado das urnas, 95% dos afiliados democratas confiam em que Obama será um bom presidente, enquanto 65% os republicanos desconfiam disto.

*Celso Roma , doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em estudos partidários e eleitorais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

PMDB bom é PMDB dividido


[Hands of Samuel Dash (R)
as he speaks during break in Watergate hearings.
Foto: Gjon Mili. Washington, DC. 1973]


Luiz Domingos Costa

Jarbas Vasconcelos foi o pivô de uma polêmica semanal. Entrevistado da semana nas páginas amarelas da Revista Veja, o senador por Pernambuco destilou seu veneno contra o partido ao qual é filiado a mais de quatro décadas, o PMDB. Logo que chegou às bancas, jornalistas e políticos pareciam estar diante de um fato e tanto. Antes da próxima edição da Revista sair, entretanto, tudo parece calmo.

Mirando o PMDB e a classe política brasileira em geral, disparou contra o governo Lula, a candidata Dilma e deixou de fora apenas a si mesmo e alguns poucos correligionários, dentre os quais José Serra e o PMDB paulista. Há que diga que foi um desabafo. Outros ignoraram por ser a mais pura repetição de um conhecimento generalizado – a de que o PMDB é fisiologista e corrupto. Outros demonstraram a uma indignação dissimulada. Independente do que se ache, o “desabafo” foi politicamente endereçado. Curioso que tenha sido na Veja? Luis Nassif não acha curioso e dá pistas para pensar em “estratégia” no lugar de “desabafo”.

Mas a serenidade das reações internas ao próprio PMDB diz mais sobre o partido do que a própria entrevista do senador. Os dirigentes nacionais relevaram, alguns líderes apoiaram, outros silenciaram. Nenhum dirigente do partido cobrou nomes, provas, nada para salvar qualquer resquício de ética, nem que fosse meramente formal. É difícil imaginar algum político de outro partido emitindo tais opiniões e, mais difícil ainda, imaginar essa inanição por parte dos dirigentes dos partidos. Esse fato não denota a apenas a faceta conivente do PMDB com a corrupção e com o fisiologismo. Denota a posição estratégica do PMDB no interior do sistema partidário brasileiro, por sua flexibilidade ideológica (que é histórica) e organizacional (que é fraca) para qualquer aliança com os demais protagonistas da política nacional, seja em torno de um só, seja dividido entre as duas pontas do eixo partidário.

Na entrevista da Veja, ele disse:

“Por que o senhor continua no PMDB? Se eu sair daqui irei para onde? É melhor ficar como dissidente, lutando por uma reforma política para fazer um partido novo, ao lado das poucas pessoas sérias que ainda existem hoje na política.”

Ora, ele poderia se filiar ao PSDB facilmente. Já que apóia José Serra e lutará por sua eleição, poderia mudar de legenda como tantos fazem no país. Não o faz por razões de política local e históricas, provavelmente.

E que novo partido o senador quer? Um PMDB novo? Nem o próprio acredita numa sandice como essa, mesmo que a reforma política seja muito severa – o que de fato não ocorrerá. Afinal, uma tal reforma política enfraqueceria o PMDB, e nenhuma reforma com esse resultado seria aprovada por um ator de peso como é dentro do Congresso.

O PMDB se sustenta em dois pilares fundamentais, ambos ligados à sua história: está muitíssimo institucionalizado e bem amparado em todo o território nacional, sendo o partido com maior representação nos municípios e mais organização no “Brasil profundo”; e desfruta como ninguém da posição de “radical de centro” e tudo o que isso trás de vantajoso numa política polarizada entre duas forças partidárias concorrentes (PT, PSDB) e insuficientes para governar sozinhas no Congresso. Os dois pilares, diga-se ainda uma vez, são fruto de seu passado, de sua origem compulsória graças ao AI-2. Por este infortúnio do destino, congregou muitos e espalhados líderes de todo o país, se fortaleceu na ampla bandeira de oposição ao regime militar e hoje é isso e apenas isso que o caracteriza (uma luta já inexistente), além da própria falta de coesão e indefinição ideológica (ou, como diz o senador Vasconcelos, “uma federação de líderes regionais”). Aí reside a força do PMDB. Amplo e difuso. Tirando uma das qualidades, o PMDB perde o seu sentido na política brasileira. E Jarbas Vasconcelos onde fica? Fica no PMDB, claro.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Partidos afinados, eleitores nem tanto

Na Folha de São Paulo de hoje duas matérias aparentemente não complementares chamam a atenção. A primeira sobre o afastamento dos eleitores frente aos partidos e a aproximação dos primeiros com as "bandeiras", em seguida palavra do ex-presidente tucano FHC clamando a união do PSDB.

Duas interpretações sobre tais matérias vislumbro no momento. Uma de acordo com a queda da popularidade do PT (mesmo com a manutenção da popularidade de Lula) e a desmistificação do Partido dos Trabalhadores, leva-nos a entender que o eleitor está ainda mais confuso quanto ás posições ideológicas de cada partido no Brasil. A segunda interpretação é que as elites políticas estão agindo de acordo com um cálculo estratégico, ou seja, estão tentano puxar mais "brasa pra sua sardinha".

Como isso se explica? De duas formas: o PT além de pulverizar sua inserção no território nacional, perdeu um pouco a característica de partido de esquerda e de setores notoriamente conhecidos (funcionalismo público, professorado, estudantes, trabalhadores urbanos). Assim o partido deixou de abocanhar grande parcela da identificação com o eleitor. Segundo que os partidos começam a notar que o eleitor fiel pode ser uma grande ferramenta, num momento de altos custos (monetários) de campanha e franca escassez de líderes políticos.
O que quero dizer é que a sustentação de um eleitor partidário e menos personalista traz maiores ganhos á longo prazo para os partidos. E, somente num momento de crise de renovação política, é que os quadros partidários resolveram partir para tal estratégia.

A política não é inocente e não acontece ao acaso (mesmo reconhecendo que a divina providência faça parte da arte da política). Os arranjos sugeridos e bradados no momento são resultado de uma conjuntura política que "precisa" de um novo modo de ação. Assim o PT deposita suas forças nas prévias regionais, o PSDB sugere a união e a criação de prévias e, até mesmo o fragmentado histórico PMDB prima pela coesão e pela união.