segunda-feira, 10 de março de 2008

Update - Folha de São Paulo - 10 março 2008


sexta-feira, 7 de março de 2008

América Latina: barril de pólvora ou migalhas da guerra fria?

Será Chávez o novo Fidel? E, com (na onda do Oscar) sangue negro nas mãos? Pelo menos para os Estados Unidos parece que sim. Pouco notei nos principais diários brasileiros a ligação direta entre Colômbia e EUA e suas consequência para o tema do momento.

Está mais do que claro que o presidente venezuelano tem se empenhado em ter as Farc sob sua tutela e ainda posando de humanista. Não que ele não o seja, mas me parece um tanto suspeito a liberação de reféns sequestrados pelas Farc apenas com um telefone amigável do chefe do executivo da Venezuela. Como diria minha avó, tem peixe nesse angu.

De outro lado, a Colômbia que não tem grandes reservas energéticas, nem grande potencial bélico desafia o apoio velado de Caracas ás Farc e á Quito. Tendo acreditar com uma leitura rasa da conjuntura internacional que Uribe não está sozinho nesta.

Desta vez nem conspiração precisamos, os EUA, CIA, FBI, Bush e todos os atores envolvidos em qualquer conspiração que se preze, estão atuando de forma explícita na América Latina. Não resta dúvida que os EUA apoiam a Colômbia justamente contra a Venezuela, que tem um bom diálogo com as Farc.

A rede intrincada de informações que aqui encontramos chega a dar nó no raciocínio lógico. Mas de dividirmos as forças seremos simplistas: o amigo de meu amigo é meu amigo; o amigo de meu inimigo é meu inimigo. O tema é o mesmo de sempre, os EUA continuam em sua cruzada histórica contra o fim do socialismo e seus derivados. O petróleo está no meio. Desta vez sim, mas em Cuba não tínhamos este elemento e as tentativas de matar Castro foram nada menos do que 638 vezes. Ou seja, o amigo de meu amigo nem sempre é meu amigo.

A luta política não está sujeitada simplesmente ao economicismo ou ao instrumentalismo. Valoriza-se a soberania das nações latino-americanas. Talvez Bush tenha se referido a mesma soberania do Afeganistão ou do Iraque. E talvez ele seja mais economicista do que pensamos.

Maquiavél já ensina em 1500: nem sempre a aliança com o mais forte é a mais frutífera. Depois da conquista o forte liquida o fraco. O Brasil parece ter aprendido uma importante lição diplomática e está, como sempre, fazendo o papel conciliatório. E a Colômbia e a Venezuela parecem não ter aprendido muita coisa.

A partir de hoje gravarei todas as minhas ligações telefônicas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Cuba: promessas de liberdade...

“Os Estados Unidos defendem com grande veemência a democracia”. Não raro lemos isso nos jornais ou em entrevistas de autoridades norte-americanas, em momentos de crise internacional. A última oportunidade em que o governo norte-americano defendeu a democracia foi quando da renúncia de Fidel Castro ao governo de Cuba.

Agora, a pergunta é: o que o governo americano entende por esse termo multifacetado democracia?

Intuitivamente, diríamos que democracia é o regime de escolha dos governantes cuja formação do governo se dá pela escolha do povo, via eleições diretas, livres e secretas. Esse é o chamado conceito restrito de democracia, ou como alguns chamam de democracia minimalista (schumpeteriana).

Entretanto, democracia também quer dizer garantia àqueles direitos ditos fundamentais (direitos de propriedade, direitos políticos, direitos sociais e mais recentemente, direitos difusos), inaugurados pela Revolução Francesa e pela Declaração dos Direitos do Homem, albergados por quase todas as Constituições escritas do globo.

Contudo, é sabido que o modelo democrático nem sempre pode ser implementado em todos os países, em virtude da cultura local e dos costumes. É necessária uma base social ou uma cultura política democrática para que assim possa florescer a árvore democrática. Mesmo assim, os norte-americanos defendem a implantação da democracia, como melhor regime do mundo, em todos os países. Então, sob esse pretexto, derrubam governos, depõem governantes e ali instalam um tipo de democracia específica.

A democracia pode, assim, ser entendida como liberdade de mercado e liberdade para consumir. Na verdade, dever-se-ia falar em implantação da lógica do capitalismo de mercado e não na instituição da democracia. No Iraque, Afeganistão e Vietnã, o que se viu foi organização de um poder central alinhado com a política econômica estadunidense para que ali se formasse mais um mercado consumidor em expansão, sem atenção aos direitos democráticos fundamentais.

Então, desconfio quando ouço promessas de libertação do povo cubano. Atualmente estão presos a um regime que os impossibilita a liberdade de contestação e revolta; mas tem o que comer, saúde minimamente de qualidade, educação de qualidade e vivem relativamente melhor que alguns desfavorecidos aqui no Brasil. Enquanto o IDH de Cuba em 1998 era de 0,783 o do município de Manari, Pernambuco, tinha, em 2000, o IDH de 0,467[1], pior do Brasil. É melhor viver em Cuba ou em Manari? Fica a pergunta.

Em tempo: o ideal seria congregar as liberdades democráticas com a igualdade de oportunidades, por meio da diminuição das desigualdades sociais, via redistribuição de renda, mediada pelos governos. Porém, segundo o artigo “Is Democracy Good for the Poor?” do autor Michael Ross, pesquisador da University of California, Los Angeles, a variável democracia não se mostra significativa quando comparada aos regimes ditatoriais na distribuição das benesses públicas que visem à diminuição das desigualdades.



[1] Os dados são do PNUD, órgão da ONU. Disponível no site:

http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M%2091%2000%20Ranking%20decrescente%20(pelos%20dados%20de%202000).htm

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Os muçulmanos não odeiam o Ocidente

De acordo com uma simplíssima matéria publicada no portal Yahoo, uma pesquisa do Instituto Gallup, realizada em cerca de 40 países e que demorou 6 anos para ser concluída, revela que a população muçulmana mundo afora (cerca de 1,3 bilhão), admira o Ocidente por sua democracia, por suas liberdades e por seus avanços tecnológicos.

A matéria ainda informa que:

"Os muçulmanos querem a autodeterminação, não uma democracia definida e imposta pelos americanos. Não querem a teocracia, o que a maioria quer é uma democracia com valores religiosos", destaca John Esposito, professor de estudos islâmicos da Universidade Georgetown.
A pesquisa afirma que 93% dos muçulmanos do planeta são moderados e apenas 7%, politicamente radicais."

A pesquisa deve ser para lá de interessante e muito esclarecedora sobre aquilo que não se tem informação por aqui: o islã que não se manifesta nas ruas, aqueles que não promovem atentados e assim por diante.
Fiquei "elocubrando" também que aqueles 7% que se posicionaram como radicais deve variar de país para país, devendo chegar a 15% ou 20% em alguns países. Então, me parece que a receita de um regime democrático "ocidental" não seja automaticamente aplicável por lá. Certamente, estes povos devem ser mais capazes de conduzir uma "transição democrática" aos seus moldes do que aceitar o modelo britânico, ou o francês, ou qualquer que seja a "engenharia institucional" forjada pelos constitucionalistas ocidentais. E foi assim no mundo todo, cada país inventando o seu modelo e adaptando diversos mecanismos de modelos diversos, por que não permitir que lá também o seja?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fidel, abertura ou conservadorismo?

A existência e a permanência de uma minoria que controla o processo decisório nas sociedades é dada historicamente, a esta minoria chamamos elite. Fidel é o extremo desta constatação.

"Como acontece em uma sociedade secreta, raramente os que estão de cima revelam o que se passa no interior de seus mundos", diria a cientista política Suzanne Keller. No caso de Cuba é ainda mais difícil prever o que está por vir. Mesmo com a confirmação de Raúl Castro como presidente da ilha, não sabemos, e acredito que ninguém saiba ao certo, o que irá acontecer nos próximos anos da história cubana.

Do mesmo modo, não creio que de uma monocracia iremos desembocar num regime aberto e democrático na falência de um líder ou no raiar de um dia. Ao que nos mostra a história, a democracia é muito mais lenta para instaurar-se do que a revolução socialista. Talvez isso suceda devido tom conciliatório que a democracia sugere. Diferente do que os príncipais líderes da esquerda mundial fizeram.

Acredito que a única previsão mais ou menos sensata seja justamente o tom conciliatório. Seja baseado num cálculo racional das elites cubanas ou devido a uma "pressão" mundial pela coexistência democrática, parece que a única previsão possível é que Cuba deixará de ocupar o cenário de oposição ferrenha ao liberalismo econômico em direção ao espectro mais dialógico com diferentes nações.

A ressalva que faço aqui é que um regime fechado (de todos os modos) como foi e é o regime Cubano, um indivíduo que concentrou o poder por 49 anos, um país com inúmeras qualidades e defeitos, uma sociedade pouco conhecida, uma população estranha aos holofotes, o baixo desenvolvimento industrial, aspectos culturais diversos e etc. e etc.

Todas essas variáveis colocam a existência de uma democracia consolidade em Cuba uma imensa incógnita. A quantidade de variáveis que podemos mobilizar para classificar como democracia ou não: o sistema de governo, o sistema político, a cultura política, o sistema partidário, a economia (se engana quem pensa que a democracia exige o capitalismo), a infraestrutura, as elites, etc. Não é possível prever o que irá acontecer.

Certeza temos uma: pequenos grupos concentram o poder, pode quem manda, tem juízo quem obedece. Bem vindo á democracia.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Bush conseguiu ressuscitar Kennedy?

Os apelos de um anúncio televisivo do democrata Barack Obama dão sinais de um “humanismo” há muito esquecido na grande política dos EUA.



É verdade que são peças publicitárias (um único exemplo), empregadas para despertar emoções e paixões, distantes de uma política de governo propriamente dita. Seja como for, se chegar à presidência dos EUA e der alguns passos contrários à atual política externa norte-americana, terá dado alguma contribuição importante para o resto do mundo: retirar as tropas americanas do Iraque, amenizar os atritos com o Irã, assinar o Protocolo de Quioto, etc. Passos insuficientes, mas não desnecessários.
Com esse pequeno vídeo – veiculado, aliás, no intervalo comercial do SuperBowl, o horário televisivo mais caro do mundo – podemos começar a entender porque Obama lidera as intenções de votos entre os jovens.
Mais marcante é ainda quando vemos um vídeo da campanha de Hillary Clinton, sua oponente nas primárias do Parido Democrata.



É interessante pensar, com esses dois vídeos, em como a disputa eleitoral dentro dos partidos é perpassada por diferenças (ideológicas, programáticas) intensas.

Além de tudo, depois de assistir ao filme “JFK” e discutir um pouco o caso, é indubitável a lembrança que o B. Obama causa nos americanos... O André está mais do que certo ao afirmar que George W. Bush ressuscitou Kennedy. Desde JFK, nenhum "presidenciável" norte-americano deu sinais tão claros de defesa da paz, de desmilitarização e de uma inserção mundial menos "unilateral". Se Obama levar o caneco e implementar algumas mudanças substantivas, terá que cuidar para que a história não se repita.