terça-feira, 10 de julho de 2007

[Opinião] Corruptores

A execução de Zheng Xiaoyu, membro recentemente defenestrado do primeiro escalão do governo chinês, apresenta uma forma alternativa no encaminhamento dos desvios de conduta requerida aos “homens públicos”. O tema tem ganhado ampla repercussão na agenda pública, e a execução desta última terça-feira (10/07/2007) pode ser compreendida como a resposta dura de um regime forte ao problema da corrupção – do que segue, a democracia brasileira, enquanto um regime liberal, é frouxa no trato com seus desviantes.

O debate da corrupção é peculiar: ele não tem um foco claro e definido, reporta-se aos “políticos” e objetiva-os ao paredão, como o senhor Xiaoyu. Sua dinâmica tem se verificado intimamente ligada à declarações polêmicas ou desastradas de personalidades de primeiro gabarito no aparelho de Estado, além é claro, da ampla cobertura que o assunto ganha na grande mídia – particularmente os editores de opinião e/ou ensaístas.

Em tempos de caça às bruxas, qualquer deslize pode ser fatal. Aos políticos brasileiros não é facultado bater um bituca fora do cinzeiro, atravessar um sinal vermelho, ou referir-se à humanidade como “o homem”. Fraudar o erário então, nem pensar. Com o perdão do recurso à escatologia, fica a questão: Fitaria Lúcia as próprias fezes?

domingo, 8 de julho de 2007

Base aliada pede adiamento da reforma política para agosto

Agência Câmara

Os líderes dos partidos da base aliada defenderam nesta quinta-feira o adiamento da discussão da reforma política para o segundo semestre, em razão das divergências em torno da matéria. O anúncio foi feito após encontro do conselho político - que reúne os partidos aliados - no Palácio do Planalto.

Na avaliação do líder do PT, deputado Luiz Sérgio (RJ), a discussão deve recomeçar do zero, reunindo novas propostas sobre o tema. O parlamentar disse não acreditar que a atual composição do Congresso Nacional seja capaz de aprovar uma reforma política ampla, pois é proveniente do modelo que está sendo discutido. "A força individual do parlamentar prevalece sobre a coletividade do partido. É um modelo carregado de vícios", declarou.

Segundo o líder do PT, os defensores da reforma política queriam que ela fosse uma "mercedes". No final, já estavam admitindo "um fusquinha". "Acabamos com uma bicicleta velha com pneu furado - ou seja, não será possível nenhuma reforma política neste semestre", avaliou.

Votação na próxima semana
Entretanto, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, disse que manterá a votação da reforma política na próxima semana, apesar do anúncio dos líderes da base aliada. Chinaglia alertou que se trata de matéria em tramitação e que os líderes que quiserem encerrá-la devem se pronunciar em plenário. "Primeiro, a reforma política foi pautada [na Câmara] e determinados assuntos passaram a ser debatidos na sociedade. Segundo, nós começamos votando alterações na legislação infra-constitucional. Terceiro, ainda vamos evoluir para discutir mudanças na Constituição. Há propostas que estão tramitando há vários anos e, na minha opinião, a Câmara tem que deliberar", destacou o presidente.

O relator da reforma política, deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), ressaltou que já apresentou uma nova emenda aglutinativa global incluindo os pontos remanescentes da proposta e corrigindo os erros regimentais que impediram a votação de ontem. "É uma correção que poderia ter sido feita até em plenário, pedindo a autorização dos deputados, para que suas emendas fossem incluídas na emenda aglutinativa. Preferiram, por um zelo maior, derrubar a emenda aglutinativa. Entretanto, 30 segundos depois, já havíamos apresentado a nova emenda aglutinativa, que agora é a de número 12", explicou Caiado.

Emenda aglutinativa
O deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), autor da questão de ordem que suspendeu a votação da matéria ontem, declarou que o texto da nova emenda continua com os mesmos problemas. Segundo ele, a emenda aglutinativa apresenta propostas já rejeitadas no projeto original e emendas que não foram destacadas. Faria de Sá afirmou que, se a matéria voltar à pauta, apresentará recurso para suspender a votação novamente.

Dia 05/07/2007 17h09
Reportagem - Geórgia Moraes/Rádio Câmara
Edição - Renata Tôrres

segunda-feira, 2 de julho de 2007

[Link] Cientistas políticos avaliam desenrolar da reforma política na CD

Os cientistas políticos Jairo Nicolau (IUPERJ) e Lúcio Rennó (UnB) avaliam o desenrolar e quais os pontos da reforma política com mais chances de serem aprovados, em reportagem especial do portal da Câmara dos Deputados. Também há avaliações sobre os pontos não aprovados e sobre a capacidade da reforma acabar com a corrupção eleitoral (o caixa dois). Confira aqui.

Seção semanal de debates - Contraponto

O blog de Análise de Conjuntura irá iniciar uma seção semanal destinada ao debate de temas e questões presentes na agenda política - a seção CONTRAPONTO. Trata-se de contrastar argumentos e pontos de vista sobre um tema em comum, mediante duas opiniões divergentes expostas em forma de artigo. Algo muito parecido com a seção diária "Tendência e debates" da Folha de São Paulo. Dificilmente iremos discutir a atuação deste ou daquele parlamentar de forma isolada, ou mesmo problematizar questões consensuais (como a "corrupção", ou a "ética"). A inclinação deve ser o debate em torno atores coletivos (os partidos, o legislativo), cenários políticos, mudanças, crises e assim por diante. Enfim, artigos opinativos mas que não se furtem de ter uma consistência analítica.
Para começar, dois textos sobre a reforma política, um que enfatiza as vantagens em relação ao modelo atual e outro que as questiona. Os leitores interessados podem contribuir com comentários.

[Contraponto] Problemas dos modelos eleitorais de voto distrital e lista fechada

Por Robert Bonifácio da Silva

Está em voga na sociedade, em discussão e em votação no Congresso Nacional a reforma política. Sobre o tema há muita polêmica e controvérsias sobre alguns pontos-chaves, como voto distrital, representação eleitoral e lista fechada. De consenso, me parece somente a necessidade de se criar um mecanismo que incentive a fidelidade partidária, que vise acabar com o famoso "troca-troca" entre partidos por parte do representante eleito.

Busca-se no momento alterar a forma como nossos representantes seriam eleitos, o que concordo plenamente. No entanto, penso que algumas opções lançadas não sejam benéficas para o nosso sistema eleitoral. Estou me referindo aos mecanismos de lista fechada e de voto distrital.

Voto distrital

Almeja-se "dividir" o país em distritos eleitorais e, a partir desses distritos, eleger os representantes. A argumentação favorável a esse sistema ancora-se na idéia de que este resultaria em uma maior aproximação entre eleitor e o político, uma vez que só se poderia votar naqueles candidatos de seu distrito (circunscrição mais reduzida) e não de seu estado (maior e mais espalhado), como é o modelo atual.

Duas limitações dessa alternativa me levam a ser contrário a ela: a primeira seria a logística, de como se dividir de modo racional e eqüitativo (no sentido de equilíbrio de número de votantes e representantes eleitos) distritos eleitorais de um pais de dimensões continentais como o Brasil. Um outro ponto se refere à natureza de representação que esse modelo criaria. Ter a opção de votar em alguns poucos candidatos de seu distrito "aprisiona" o eleitor a líderes locais, diminuindo o espectro de suas escolhas, o que a meu ver não é benéfico. Outro ponto (o mais crítico) se refere à inversão de lógica que esse modelo criaria. Ao se votar num deputado federal, dever-se-ia votar em alguém que o eleitor imagina que seja benéfico para a nação, que discuta temas e interesses da nação. A adoção do voto distrital inverte essa lógica, pois a base de análise seria a sua região, o eleitor estaria elegendo alguém que "brigue" por sua região, que discuta e aja em favor de interesses locais. A discussão de temas nacionais num sistema eleitoral de voto distrital, a meu ver, levaria necessariamente a uma regionalização ainda mais aprofundada da política brasileira.

Lista fechada

Outra alternativa que se põe é a adoção de listas fechadas de deputados. O eleitor votaria num partido e não num deputado para as eleições proporcionais, diminuindo a interação entre o político e o eleitor, diminuindo assim o personalismo na política. Sem dúvida, esse seria um provável efeito positivo da adoção da lista fechada, mas pena não ser o único. Com esse sistema, um outro efeito seria o maior fortalecimento das oligarquias partidárias, que hierarquizariam a ordem dos candidatos da lista. A meu ver, isso diminui a capacidade do eleitor de escolher um político que se posiciona da maneira que ele acha mais conveniente (pois nada garante que este político estar no topo da lista e que o numero de votos do partido consiga faze-lo ser eleito) e impede (ou pelo menos dificulta) a ascensão de novos lideres.

Um ponto que acredito que merece ser alterado é o relativo ao modo de distribuição de vagas legislativas. No modelo atual, pode-se ter coligações para eleições proporcionais. Caso uma coligação receba 20% dos votos totais, terá direito a 20% das cadeiras legislativas. A partilha das vagas não se dá pelo peso que cada partido teve no total de votos, mas pelo numero de votos que cada candidato obteve. Isso estimula a existência de partidos de aluguel, formados para eleger pessoas que muitas vezes não se destacam pelas suas propostas e idéias, mas sim por seu tipo bizarro ou pelo poderio financeiro, utilizado para canalizar votos. O fim das coligações serviria para ajudar a eliminar da política esses tipos de partidos e políticos que em nada ajudam a promover um debate político qualificado e benéfico a nação

A reforma política é necessária, mas é há que se ponderar que tipo de reforma queremos. As alternativas de lista fecha da e voto distrital, quando não esbarram em problemas técnicos/logísticos, não se mostram capazes de alterar o ranço personalista da política brasileira.

Robert Bonifacio da Silva é mestrando em ciência política pela Unicamp.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

[Contraponto] Voto distrital e lista fechada: as vantagens em relação ao modelo atual

Por André Barsch Ziegmann*

A reforma política está em debate, mais uma vez. Quarta-feira (27/07/2007), o plenário da Câmara dos Deputados rejeitou, com larga vantagem, a lista preordenada. Os pequenos partidos juntaram-se a congressistas das grandes legendas e acabaram com uma ótima oportunidade de tornar as eleições legislativas mais inteligíveis e menos corruptas. Fazer o quê, é difícil esperar mudanças profundas daqueles que se alimentam do sistema. Agora é torcer pelo voto distrital, puro, que certamente é melhor que o modelo vigente, contudo esse, com sorte, deve ser apenas debatido, mencionado!

Nesse texto pretendo discorrer sobre as vantagens do voto distrital e do proporcional de lista fechada sobre o modelo em voga, que pelo jeito vai perdurar por muito tempo. Vou destacar sempre dois pontos, a facilidade do eleitor entender o processo de eleição e a chances de diminuir um pouco a corrupção.

Voto distrital, funcionamento e vantagens

Vamos começar pelo distrital. Como o nome já diz, se esse modelo fosse implantado o Brasil seria dividido em 513 distritos, nos atendo apenas para a eleição da Câmara. Cada um deles teria aproximadamente 244 mil eleitores (divisão, por cima, do número de eleitores pelo de cadeiras). Assim ficaria mais fácil para o cidadão entender como funciona o mecanismo de escolha. O seu município, ou o seu bairro, junto com outros municípios e bairros, escolherá um deputado que os represente na Câmara Federal. No modelo vigente o eleitor vota num candidato que faz 80 mil votos (muitas vezes de sua região) que não se elege e vê outros com 40 mil (de outras e distantes regiões) sendo eleitos. Facilidade também em saber quem é o representante da região, de cobrar promessas, e porque não, de reconhecer uma oposição ao congressista, até porque o eleitor não vai se deparar com milhares de candidatos pedindo seu voto, alguns deles, de lugares tão longínquos, que não fazem a mínima idéia das necessidades específicas do distrito. Os gastos de campanha também seriam menores. Ao invés de concorrer em todo estado, o candidato disputa uma eleição mais “barata”, com menos oponentes e num espaço geográfico reduzido. Por exemplo, no caso do Paraná, ao invés de lutar, em todo o estado, com uma concorrência gigantesca e por um eleitorado de mais de 7 milhões de votos, a embate vai ser circunscrito aos 244 mil eleitores do distrito e a poucos municípios e bairros. Boa parte dos deputados são eleitos com grandes votações em regiões bem definidas, muitos enfatizam na campanha que são os candidatos de suas regiões. Contudo, vários opositores, sem nenhum enraizamento regional, e com base apenas no poderia econômico “invadem” o distrito e muitas vezes tiram a possibilidade da eleição de um político, que possui uma forte base e é reconhecido por algum trabalho que prestou ou presta a comunidade. Há cenários piores, quando políticos, apenas com base no dinheiro, aproveitam-se de vácuos de lideranças regionais e alçam vôo aos legislativos com grandes votações (algumas vezes até desnecessárias, pois já têm os votos suficientes) em regiões onde são nada ou quase nada conhecidos, onde não prestaram nenhum grande serviço. Fica difícil a cobrança, pois o político apareceu no “distrito” apenas na eleição, montou um forte esquema de campanha com vereadores e prefeitos (formadores de opinião/cabos eleitorais), elegeu-se e sumiu! E pode fazer isso, porque têm votos em outros lugares que dão segurança a sua tentativa de reeleição.

Problemas e críticas ao voto distrital

Contudo como não existe forma perfeita, o voto distrital tem suas críticas e dificuldades. Uma delas é de caráter técnico. Imagine dividir o Brasil em distritos federais, estaduais e municipais. Seria necessário aumentar o número de representantes em algumas Assembléias Estaduais, pois o ideal seria dividir o distrito federal em dois estaduais, para manter a proporção de representação exata. É de se esperar que um bairro ou município faça parte de um distrito integralmente (seja ele qual for, federal, municipal ou estadual) e não repartido entre vários do mesmo nível de governo (imagine um município ou bairro dividido entre vários distritos federais, o processo sem dúvida ficaria muito confuso). Outra dificuldade, que com certeza inviabiliza a implantação do modelo puro é a deformação na representação dos Estados. Roraima elege 1,55% (da Câmara) quando têm apenas 0,2 % do eleitorado; é como se o roraimense votasse oito vezes para deputado federal. Esse estado, se a desproporção não for corrigida, seria dividido em distritos de 26,8 mil eleitores. Já o Estado de São Paulo elege apenas 60% da representação a que tem direito, totalizando 70 deputados (deveria eleger 114). Caso o Estado fosse dividido por esse número, os distritos teriam 386 mil eleitores cada. Dessas contas concluímos que um eleitor de Roraima vale 14,4 eleitores de São Paulo.

Outras críticas são referentes à deformação na representação partidária e conseqüente diminuição da competição. A primeira acontece porque a cadeira é conquistada apenas com a vitória no distrito – não adianta fazer 20% dos votos totais e não ganhar em nenhuma região. Tal argumento, muito utilizado pelos críticos do voto distrital, pode ser rebatido por aqueles que olham a eleição distrital por um outro prisma. O deputado é eleito pela região, por mais que o cidadão tenha votado no candidato que perdeu ele será representado por alguém. Ou seja, se por um lado tal modelo pode deformar a representação das legendas, por outro vai garantir que todas as regiões de um território estejam representadas no legislativo. Por esse prisma podemos acusar o voto proporcional de deformar a representação regional. A diminuição da competição partidária acontece justamente porque é mais difícil eleger um parlamentar, reduzindo o estímulo a formação de novos partidos. A organização será atraente para as lideranças se tiver uma forte penetração territorial, uma considerável bancada pré-existente nos legislativos e proporcionar as bases e recursos políticos necessários para uma candidatura bem sucedida.

Lista fechada: prós e contras

E a lista fechada? Ao votarmos nos partidos os milhares de candidatos que disputam os votos dos eleitores vão sumir. Toda aquela poluição causada por santinhos e adesivos vai diminuir. As eternas e repetitivas promessas de campanha por trabalho, segurança, educação e saúde vão ter der ser mais bem elaboradas, pois para atrair os eleitores os partidos terão que demonstrar diferenças entre si. O processo vai se tornar literalmente mais limpo, mais inteligível e mais passivo de cobrança por parte do eleitor. Esse modelo seria um golpe duro na corrupção. No modelo atual os candidatos gastam muito dinheiro para serem conhecidos em todo estado, diante de um gigantesco e heterogêneo eleitorado e enfrentam uma concorrência absurda (vale lembrar que o partido ou coligação pode lançar uma vez e meia o número de cadeiras em disputa). O poderio econômico assume uma importância muito grande, o que sem dúvida estimula o crime eleitoral. Com os recursos centralizados nas campanhas dos partidos, os gastos tendem a diminuir, pois se apenas o partido tem que tornar sua legenda conhecida, a concorrência (o modelo atual é tão sem lógica, que os membros do mesmo partido concorrem entre si) vai cair drasticamente (ao invés de milhares de candidatos, dezenas de partidos). A lista fechada também poderá reprimir candidaturas aventureiras, pois candidatos acabam se elegendo com votações absurdas e “puxando” candidatos inexpressivos. Em 2002, devido ao fenômeno “Enéas” tivemos em São Paulo candidatos eleitos com 200 votos e outros que fizeram mais de 100 mil ficaram de fora. Esse só um dos exemplos da bizarrice em que se constitui a lista aberta. Muitos críticos acreditam que a lista fechada dará muito poder as direções partidárias. Primeiro, direções poderosas existem seja lá qual for o modelo. As listas podem ser escolhidas através de convenções ou prévias, como acontece no Paraguai por exemplo. Nesse país os filiados dos partidos votam em qual lista deve ser apresentada pela legenda nas eleições. No atual modelo as direções (já fortes), têm poder sim sobre quem será ou não candidato e ainda podem privilegiar certas candidaturas. Esse modelo poderia, assim como o distrital, racionalizar o sistema partidário, sem contudo polarizar a eleição em duas ou três legendas, e manteria uma competição política aceitável para um regime democrático.

Evidente que nenhum modelo é perfeito, e tais mudanças não irão eliminar por completo o fisiologismo, o clientelismo e a corrupção. Contudo o modelo atual potencializa todos esses fenômenos negativos da política. O único país do mundo que tem um modelo igual ao do Brasil é a Finlândia (e não cabe comparações). Mais uma vez, nossos deputados estão certos, e o resto do mundo está errado.

André Barsch Ziegmann é mestrando em Ciência Política pela Unicamp e editor do Boletim de Análise de Conjuntura do GAC.