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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os valores (políticos) dos jornalistas brasileiros

[Yale University Daily News. John Phillips, 1942.Life]

Daniel Marcelino*
Lucio Rennó**
Ricardo Mendes***
Wladimir Gramacho****

Resumo: Quais crenças e valores são compartilhados pelos jornalistas brasileiros? Os resultados desta pesquisa oferecem uma descrição dos primeiros dados disponíveis sobre as opiniões, crenças e valores dos jornalistas brasileiros e os contrasta com as preferências valorativas da população, ambos aferidos por meio de pesquisas de opinião pública. Os achados deste estudo apontam para um quadro bastante positivo sobre a forma como pensam os jornalistas entrevistados. O principal achado é a absoluta convicção entre jornalistas de que a democracia constitui a forma preferível de regime político. Também são discutidas questões como identificação partidária, preferência ideológica, avaliação da mídia e das instituições políticas nacionais. Enfim, mostramos aqui um quadro amplo sobre as opiniões e crenças dos jornalistas brasileiros em contraste com as opiniões da população.

Os meios de comunicação jogam papel central no funcionamento de regimes democráticos (Dahl, 2005) pois exercem uma função de investigação e divulgação do desempenho de atores públicos e privados que confere transparência ao sistema político. Os meios de comunicação também instruem e informam os cidadãos sobre o sistema político exercendo, portanto, uma função pedagógica essencial nas sociedades modernas. Como apontam vários autores que estudam o papel dos meios de comunicação e sua interface com a política, uma imprensa livre e autônoma é fundamental para o fortalecimento da democracia e para o exercício mais completo do controle social sobre o poder político (Lawson, 2002). Por último, em uma visão mais sociológica da democracia, baseada em uma interpretação discursiva da mesma, processos comunicativos são centrais para a formação de espaços públicos de deliberação e os meios de comunicação exercem papel central na construção dessas arenas (Avritzer e Costa 2004).

Contudo, afora editoriais de jornais e blogs – que normalmente representam a opinião da empresa, de uma coletividade, de uma organização ou apenas de um indivíduo –, não temos informações concretas sobre como pensam as pessoas que operam os meios de comunicação no Brasil como um todo. Editoriais e blogs não permitem generalizações sobre como pensa o universo de jornalistas no país. Um modo de se chegar a conclusões sobre essas opiniões é a realização de pesquisa de opinião pública com jornalistas, nos moldes das realizadas pelo The Pew Research Center for the People and the Press (http://people-press.org/) nos Estados Unidos. Até onde sabemos, não há pesquisas de opinião semelhantes no Brasil enfocando jornalistas. Dessa forma, não temos muitas informações, ao nível individual, sobre como pensam os jornalistas brasileiros acerca da política, economia e sociedade embasados em uma amostra que inclua jornalistas de todo o país e exercendo funções variadas na indústria da mídia.

Desvendar o que passa pela cabeça dos jornalistas é fundamental para entendermos suas aspirações, valores e crenças que, indiscutivelmente, influenciarão suas coberturas jornalísticas. Obviamente que distanciamento, fidedignidade, compromisso com o fato e imparcialidade são valores centrais no exercício da profissão. Mas o fato de termos opiniões pessoais e idéias consolidadas sobre o mundo impõe-nos lentes que orientam a leitura da realidade, podendo gerar vieses em nossas interpretações e descrições do mundo. Isso ocorre com qualquer profissional, e jornalistas não são diferentes. Assim, entender como as pessoas que produzem informação no Brasil pensam a sociedade, a economia e a política passa a ser fundamental para entendermos como e por quem essa informação é produzida.

As informações que apresentamos foram coletadas por intermédio de um questionário estruturado aplicado por telefone, com perguntas contendo alternativas de resposta pré-definidas, em uma amostra de 212 jornalistas de mais de 70 diferentes empresas distribuídas nas cinco regiões brasileiras. A amostra foi sorteada aleatoriamente usando uma estratégia de estágios múltiplos, que será discutida mais detalhadamente a seguir. Os dados coletados, portanto, permitem fazer inferências para o universo de jornalistas em atividade no Brasil. Uma amostra maior teria sido mais indicada, mas os dados dão uma ideia bastante fidedigna da diversidade de pensamento sobre os temas tratados na pesquisa e sobre as tendências gerais das visões de mundo desse setor."
[...]

Para acessar o artigo na íntegra, clique aqui.

* Mestrando no Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas - CEPPAC - da UnB.
** Ph.D. em Ciência Política pela University of Pittsburgh. Professor Adjunto e Diretor do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas - CEPPAC - da UnB.
*** Mestrando em Ciência Política na UnB, é analista de pesquisas do Instituto FSB Pesquisa.
**** Jornalista e cientista político, é doutor em ciência política pela Universidade de Salamanca, diretor executivo do Instituto FSB Pesquisa e pesquisador associado do Centro de Estudos Avançados de Governo (CEAG) da UnB.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Comparações (des)necessárias

Capa da edição 2091 da Revista Veja, de 17 dez. 2008:




Capa da edição 526 da Revista CartaCapital, de 17 de dez. 2008:




Conjuntura política da semana (14 a 19 de dezembro de 2008): AI-5 completa 40 anos; crise na economia; final de ano de atividades parlamentares; pesquisas de opinião sobre a ditadura militar, sobre o aborto, sobre a pena de morte; relatórios sobre os direitos humanos no Brasil... Há muito material útil para explorar.

O fato mais importante do momento, sem dúvida, é o aniversário de 40 anos do AI-5.
Pesquisa Datafolha identifica que 82% dos brasileiros não conhecem o Ato que instaurou a maior força repressora do país. Não caberia à Veja, nem tampouco à Globo, contribuir para a memória da população e fazer jornalismo sério depois de estarem há 40 anos (pelo menos a Veja) do lado negro da força.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Você gostaria de votar na eleição norte-americana?



A idéia dos cidadãos de diversos países participarem da eleição presidencial norte-americana ganhou força nas últimas semanas. Em parte, graças a política (militar, comercial, ambiental) dos EUA ser a mais influente globo afora em geral. Em parte, graças à forte rejeição associada ao governo G.W. Bush e o ‘caso’ Iraque. Em parte, ainda, pela popularidade conquistada por Barak Obama.

É uma idéia controversa. Embora achemos que os EUA sejam o grande responsável por muitas coisas que ocorrem em nosso quintal e no quintal dos vizinhos, não é algo assim lógico e simples ampliar a eleição de um território para todos os seus ‘beneficiários’ diretos e indiretos. Afinal, você concorda que os paraguaios participem da eleição presidencial brasileira? E quanto aos bolivianos? Você gostaria de participar da eleição para o governo de São Paulo? Imaginem um governador de São Paulo sendo eleito com o voto dos estados que São Paulo influencia! Ele terá uma legitimidade dos estados com os quais São Paulo concorre na política fiscal! Então, imaginem Barak Obama sendo eleito com o voto dos palestinos. Ele poderá deitar e rolar por lá ainda mais, pois terá não apenas dinheiro e armas, terá também a legitimidade do voto. E não desconsiderem o poder simbólico desta frase!

Não é idéia fácil. Mas uma espécie de enquete com os internautas está sendo feita por uns islandeses. Para participar, clique aqui.

Viu os resultados? Obama é mais popular no mundo do que o Beto Richa em Curitiba. E você pensando que o Richa era o imbatível do ano...

quinta-feira, 28 de junho de 2007

[Pesquisa] Maioria dos brasileiros não conhece ou não acompanha a reforma política...

...Foi o que mostrou a última pesquisa do Instituto CNT/Sensus. De acordo com a 89ª rodada da sua pesquisa de opinião pública nacional, 51,5% dos entrevistados não ouviu falar ou nem acompanha a reforma política. Entre os 46,8% dos que afirmaram saber da reforma, somente 19,8% disseram acompanhar as discussões, ao passo que 27% afirmaram que “ouviram falar”. Até aqui, nada de muito inesperado, visto que a mídia televisiva não cobre como deveria uma questão desta natureza e a relação do brasileiro com a política é compreensivelmente entediada. Contudo, o dado mais curioso está na quantidade de entrevistados (que sabem da reforma) contra a fidelidade partidária: 40,7%, quase metade. Há que se considerar, nesta e em outras questões da pesquisa, uma incrível capacidade para complicar as perguntas, colocando-as de formas confusas, quando não enviesadas. Ainda assim, é um dado que gera curiosidade. Como ser contra a fidelidade partidária? Mais uma questão que merece ser aprofundada por pesquisas de opinião pública, procurando os motivos e as razões desta posição.

As demais perguntas voltadas para a reforma política não parecem apontar novidades. Os entrevistados se mostram céticos e contrários aos principais pontos da reforma. Parecem preferir que o sistema eleitoral permaneça como está. Vejamos os dados:



Em pergunta que estimula os entrevistados a optarem por um partido (em caso de aprovação da lista fechada), o PT continua a apresentar os maiores índices de voto partidário: 21,4%, ficando perto daqueles que responderam “nenhum partido”, 22%. O PMDB teria voto de 10% dos eleitores, o PSDB, de 7,7% e todos os demais partidos ficariam abaixo dos 5%.

Uma questão de ênfase: muitas questões (da pesquisa toda) parecem ser um ataque ao bom senso. Têm formulações erradas, confusas ou claramente tendenciosas, comprometendo a interpretação dos dados – algo que já foi observado por outros sites e colunistas...

Enfim, para comprovar, aqui está o relatório completo da 89ª Rodada da pesquisa de opinião pública SNT/Sensus. Pode-se averiguar a avaliação do governo, da economia, da “crise aérea”, sobre a censura na TV, violência e outros. O Instituto também disponibiliza os dados das rodadas anteriores.