Governor Adhemar Barros and his family sharing a laugh. Foto: Dmitri Kessel, 1947. Life.
O Estado Novo em geral é associado a duas imagens: uma ditadura; um regime "técnico" (i.e., onde a técnica de governo deveria superar a politicagem dos profissionais do ofício).
Só que “competência” conta, nesse sistema político, muito menos que representatividade, junto às forças estaduais, e fidelidade política ao próprio presidente da República, o "chefe" da Nação.
Aureliano Leite refere a impressão de Getúlio Vargas sobre seu Interventor em São Paulo a partir de 1941.
Segundo o escritor, o ditador chamava Fernando Costa de “locomotiva de manobras”, já que ele se limitava a “fazer movimentos, barulho, fumaça, sem apreciáveis resultados. (Cf. Aureliano Leite, Páginas de uma longa vida. São Paulo: Martins, 1966, p. 305, n. 13).
Ademar de Barros era outro caso onde a confiança na lealdade num ambiente de incerteza política pode superar qualquer deficiência. Na entrada de 26 de dezembro de 1938 Getúlio Vargas anota o seguinte:
"[Ademar] me fez a revelação senscional de seu comparecimento secreto a sessões epíritas, onde os seus amigos e guias, já falecidos, a ele se manifestavam, através de uma médium, para informá-lo e previni-lo de certas ocorrências [...]. Fiquei surpreso pela credulidade dele, mostrando-me pedras que recebera dos mensageiros do espaço --- pequenas pedras preciosas que ele afirmava terem se formado no espaço!". (Getúlio Vargas: diário. São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1995, vol. II, p. 185).
Sem comentários. O ponto de exclamação de Vargas já vale por isso.
Em eleições onde não há polarização ideológica efetiva (esquerda versus direita, por exemplo), é difícil distinguir propostas e candidatos. Tudo é muito, muito parecido. Via de regra, um postulante assume a agenda de governo do outro, só que numa versão melhorada, segundo eles mesmos.
Para desenredar essa trama, é preciso olhar o panorama político municipal não em função das campanhas atuais, mas a partir da história eleitoral recente. Desse ponto de vista, percebem-se mudanças importantes, (des)continuidades, momentos críticos onde foi útil incorporar o assunto e o perfil dos adversários. Relacionar grupos/partidos e discursos/agendas é um bom exercício para pensar como e por que, em Curitiba, estamos diante de políticos cada vez mais semelhantes e que, curiosamente, lutam para ficarem cada vez mais idênticos.
Após anos de supremacia de Lerner e sua confraria à frente da Prefeitura de Curitiba, o discurso da racionalidade técnica e da competência administrativa foi desafiado, na eleição municipal de 2000, pelo slogan “a cidade quer ser gente”, inventado pela campanha de Ângelo Vanhoni, do PT. Menos a frase e mais o que ela prometia – uma administração “humana”, isto é, voltada para o bem-estar das “pessoas” – foi responsável pela mais severa contestação da aliança política que, com os devidos ajustes, ocupa hoje a prefeitura da capital. Cássio Taniguchi (PFL) disputou o segundo turno correndo sério risco de perder a eleição para um partido relativamente pequeno e para um desafiante até então pouco conhecido.
Com o crescimento do PT na cidade (em 2000, elegeu seis vereadores, a segunda maior bancada na Câmara Municipal) e a entronização de Vanhoni como alternativa eleitoral enfim viável, a assessoria de Beto Richa cunhou, para a eleição de 2004, o slogan “a cidade da gente”, em clara alusão ao lema petista anterior. Deixando de lado sua conotação bairrista, que estigmatizava os demais candidatos e partidos como estrangeiros, no limite intrometidos e, portanto, indesejáveis, o fraseado pretendia incorporar, no plano discursivo, um assunto até então ausente nas campanhas políticas dessa turma: a assistência social. Aparentemente, o cardápio de idéias da gestão lernista estava esgotado e a elite no poder viu-se impelida a adicionar à imagem tradicional – uma administração técnica, racional, voltada para a construção de uma cidade-modelo a partir das diretrizes científicas do planejamento urbano – a preocupação com “o social”. A estampa de Richa como engenheiro civil, ainda presente e sempre muito útil, mesclou-se com a do político. Herdeiro da mitologia recém-edificada em nome do pai, ele pôde, como pode agora, apresentar-se não como mais um “técnico”, mas como o “ético”. Não era precisamente o PT que pretendia ter o monopólio nessa área?
Em Curitiba, a tecnocracia (seja o grupo político, seja a idéia política) já foi bem mais forte. Em 2008, ela é muitíssimo menos valorizada eleitoralmente. Nenhum candidato todavia pode abrir mão de proclamar o cuidado com o ordenamento e o desenvolvimento urbano da cidade. Trata-se de um valor local enraizado. Por outro lado, a questão social entrou de fato na agenda pública municipal. Essa foi, possivelmente, a principal mudança no plano das idéias e dos discursos.
Não é preciso acompanhar todos os programas eleitorais para perceber que a ênfase dos dois principais candidatos sobre esse ponto produziu um curto-circuito tanto na imagem como na mensagem do PT. Até por isso, a figura maternal de Gleisi Hoffmann, prometendo “cuidar das pessoas”, nada menos do que a radicalização um tanto piegas daquela disposição assistencial, teve de ser complementada pela exibição (e pela exaltação) do seu currículo profissional: técnica em orçamento público, especialista em finanças, secretária de governo etc. O drama é que nos últimos quatro anos seu oponente incorporou, de forma bem mais pragmática, essa inclinação para as questões sociais, sem abrir mão do figurino circunspecto de administrador.
Esse é um exemplo muito simplório de como ideologias, plataformas e programas partidários acabam se mesclando. Em função do apelo eleitoral, candidatos tendem a mudar de posição, ajustar discursos e compartilhar agendas.
Em certas eleições, as diferenças estão muito bem dispostas diante do eleitor. Em outras, nem tanto. Procurar as origens dessa miscigenação é importante para desembaralhar o cenário político. Promover todos os assuntos, assumir o estereótipo mais rentável e ostentar quaisquer bandeiras parece ser em todo o lugar a lógica subjacente às estratégias dos candidatos, mesmo que isso possa minar a identidade dos respectivos partidos. Movimento perigoso, já que depende da dose. Ela oscila entre o que uma agremiação pretende incorporar e aquilo de que não pode abrir mão. Recuar um pouco no tempo para atentar não só para diferenças, mas para como as distinções foram se borrando e as propostas perdendo substância pode ser um antídoto para esse sintoma da política contemporânea.
Quem governa? é uma sociologia empírica dos agentes sociais que comandam o Poder Executivo, o Poder Legislativo e os principais partidos políticos do Paraná nos anos noventa. Situa-se na contracorrente do movimento teórico dominante. Seu suposto básico é, em poucas palavras, o seguinte: em política, quem decide tem tanta importância quanto a moldura institucional que formata as decisões. Daí não só a necessidade, mas o proveito em traçar um perfil social, profissional e ideológico da elite política e analisar seu comportamento em alguns processos decisórios específicos. [para ler uma resenha clique aqui] [para comprar o livro clique aqui]
Sumário
Parte I: O perfil das elites paranaenses
1. Os atributos da elite político-administrativa: uma visão descritiva dos ocupantes dos empregos políticos no Paraná Adriano Nervo Codato & Julio Cesar Gouvêa
2. O perfil dos parlamentares paranaenses: gênero, religião e classe (1995-2002) Renato Monseff Perissinotto & Luiz Domingos Costa
3. Os atributos da elite partidária do Paraná e sua distribuição no espectro ideológico (1995-2002) Julio Cesar Gouvêa
Parte II: A carreira política das elites paranaenses
4. Vias de acesso a posições de poder: um estudo da trajetória da elite político-administrativa do governo Lerner Adriano Nervo Codato & Bruna Gisi Martins de Almeida
5. As avenidas do poder: a trajetória política dos deputados estaduais paranaenses (1995-2002) Luiz Domingos Costa
6. A experiência acumulada: a carreira política da elite partidária do Paraná (1995-2002) Julio Cesar Gouvêa
Parte III: Os valores políticos das elites paranaenses
7. Técnicos de Estado e democracia: os valores políticos da elite político-administrativa paranaense (1995-2002) Bruna Gisi Martins de Almeida & Mariana Bettega Braunert
8. A direita, a esquerda e a democracia: os valores políticos dos parlamentares paranaenses (1995-2002) Renato Monseff Perissinotto & Mariana Bettega Braunert
9. Partido e posição ideológica: os valores políticos da elite partidária paranaense (1995-2002) Mariana Bettega Braunert & Bruna Gisi Martins de Almeida
Parte IV: ESTUDOS DE CASO - O comportamento da elite parlamentar durante a 14a Legislatura
10. Produção legal e relação entre Executivo e Legislativo no Paraná (1999-2002) Sérgio Soares Braga & Andressa Silvério França
11. Mídia e Legislativo: a cobertura jornalística da Assembléia Legislativa do Paraná (1999-2003) Mario Fuks & Emerson Urizzi Cervi
12. Processo decisório e ampliação do conflito na ALEP: o caso da Copel Mario Fuks & Emmi Izollan
Conclusão: o perfil da elite e o papel das instituições Renato Monseff Perissinotto & Adriano Nervo Codato
Debate em plenário, Assembléia Nacional Constituinte. Congresso Nacional, Brasília, 19/8/1987.
SOBRE
Blog do Grupo de Análise de Conjuntura Política do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da UFPR, Brasil. Artigos, entrevistas, pesquisas e informações sobre a conjuntura política nacional e estadual. Mais...